HIV em Moçambique: desafios para o diagnóstico e a continuidade do tratamento

 

O HIV/VIH, vírus da imunodeficiência humana, continua a ser um dos principais desafios de saúde pública em Moçambique. Embora os avanços no diagnóstico e no tratamento antirretroviral permitam que muitas pessoas vivam durante décadas com o vírus, ainda existem dificuldades relacionadas com a detecção precoce, o acesso aos serviços de saúde e a continuidade do tratamento.

Segundo estimativas da ONUSIANA referentes a 2024, Moçambique tinha cerca de 2,4 milhões de pessoas a viver com HIV, das quais aproximadamente 2 milhões estavam em tratamento antirretroviral. Estes números mostram a dimensão da resposta necessária e a importância de manter os serviços de prevenção, testagem e acompanhamento.

O diagnóstico precoce continua a ser fundamental

Uma das dificuldades no combate ao HIV é que uma pessoa pode viver durante anos com o vírus sem apresentar sintomas evidentes. Por isso, sentir-se saudável não significa necessariamente não estar infetado. A testagem é a forma de conhecer o estado serológico e, quando o resultado é positivo, iniciar os cuidados necessários.

Em Moçambique, os serviços de saúde disponibilizam testes de HIV, incluindo testes rápidos. Um resultado reagente deve ser confirmado de acordo com o algoritmo nacional de diagnóstico, com orientação de profissionais de saúde. Se o teste for realizado pouco tempo depois de uma possível exposição, pode ser necessário repeti-lo, porque existe um período em que a infeção ainda não é detetável por determinados testes.

O medo do estigma, a preocupação com a confidencialidade e a discriminação podem levar algumas pessoas a adiar a testagem. A informação correta, o aconselhamento respeitoso e a proteção da privacidade são essenciais para que mais pessoas procurem os serviços de saúde sem receio de serem julgadas.

As dificuldades para continuar o tratamento

O tratamento antirretroviral é essencial para controlar o HIV, proteger o sistema imunitário e reduzir o risco de transmissão. Contudo, iniciar a medicação é apenas uma parte do processo: é necessário continuar a tomá-la conforme a prescrição, comparecer às consultas e realizar os exames recomendados, incluindo a medição da carga viral.

Em Moçambique, a continuidade dos cuidados pode ser dificultada pela distância entre a residência e a unidade sanitária, pelos custos de transporte, pelas longas filas de espera, pela mobilidade das pessoas e pelo receio de discriminação. Quando alguém muda de local de residência ou interrompe as consultas sem transferir o acompanhamento, pode perder o contacto com os serviços de saúde.

Um estudo publicado em fevereiro de 2026, baseado em dados de unidades sanitárias da cidade de Maputo entre 2013 e 2020, identificou melhorias na permanência dos pacientes em tratamento após a introdução da estratégia de iniciar a terapêutica logo após o diagnóstico. Ainda assim, a perda de seguimento continuou a ser um desafio, demonstrando a importância de serviços acessíveis e de um acompanhamento adaptado às necessidades de cada pessoa.

Outro desafio é a qualidade dos dados utilizados para acompanhar os pacientes. Um estudo publicado em 2026 sobre a revisão dos registos nacionais revelou diferenças importantes entre os números registados nos sistemas de saúde e os dados de acompanhamento e levantamento de medicamentos. Esta situação mostra a necessidade de melhorar os registos para identificar corretamente quem continua em tratamento e quem precisa de apoio para regressar aos cuidados.

A importância do tratamento e do apoio comunitário

Embora ainda não exista uma cura definitiva para o HIV, os medicamentos antirretrovirais permitem controlar o vírus e possibilitam uma vida longa e saudável. Quando o tratamento reduz a carga viral a níveis indetetáveis e essa supressão é mantida, o HIV não é transmitido sexualmente. Este princípio é conhecido internacionalmente como Indetetável = Intransmissível.

A continuidade do tratamento deve ser acompanhada por informação clara, confidencialidade e apoio sem discriminação. Familiares, profissionais de saúde e organizações comunitárias podem ajudar a combater mitos, incentivar a testagem e apoiar as pessoas que enfrentam dificuldades para manter as consultas e a medicação.

As mulheres grávidas que vivem com HIV também precisam de acompanhamento adequado durante a gravidez, o parto e a amamentação, conforme as orientações clínicas, para proteger a própria saúde e reduzir o risco de transmissão ao bebé.

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