As inundações que atingiram várias regiões de Moçambique durante a época chuvosa de 2025–2026 trouxeram, além dos danos materiais e dos deslocamentos populacionais, um importante risco para a saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que a combinação de cheias, danos nas infraestruturas de água e saneamento e concentração de pessoas deslocadas aumenta o risco de doenças transmitidas pela água, incluindo a cólera.
Como as cheias favorecem a transmissão da cólera
A cólera é causada pela bactéria Vibrio cholerae e está diretamente relacionada com água e alimentos contaminados. Durante uma inundação, águas provenientes de rios, valas, latrinas e outras áreas contaminadas podem misturar-se com fontes utilizadas pelas comunidades para beber, cozinhar ou lavar alimentos.
O problema torna-se ainda maior quando poços, sistemas de abastecimento e outras fontes de água ficam contaminados ou danificados. Sem tratamento adequado, a população pode consumir água contendo a bactéria sem saber que está contaminada.
A OMS destacou que, nas zonas afetadas pelas cheias em Moçambique, as limitações no acesso à água segura, saneamento e higiene aumentaram o risco de diarreia aquosa aguda e cólera.
Pessoas deslocadas enfrentam maior risco
As cheias também provocam deslocamentos. Muitas famílias precisam abandonar as suas casas e procurar abrigo em centros de acolhimento ou outras áreas mais seguras.
Quando milhares de pessoas ficam concentradas em espaços temporários, pode haver dificuldades para garantir água potável, casas de banho suficientes, eliminação adequada de resíduos e condições apropriadas para a lavagem das mãos. A sobrelotação aumenta ainda mais a vulnerabilidade das comunidades.
Em Moçambique, as inundações afetaram centenas de milhares de pessoas. Na província de Gaza, por exemplo, quase 440 mil pessoas foram afetadas no auge da emergência em janeiro de 2026, com cerca de 81 mil deslocadas para centros de acolhimento.
Por que a situação é especialmente preocupante em Moçambique?
A preocupação não surgiu apenas por causa das cheias. Moçambique já enfrentava um surto de cólera antes e durante o período das inundações. Em fevereiro de 2026, a OMS informou que Moçambique representava cerca de 90% dos casos de cólera registados na África Austral naquele período, enquanto mais de 700 mil pessoas no país tinham sido afetadas pelas inundações.
A combinação de uma epidemia existente com condições ambientais favoráveis à transmissão criou uma situação que exigiu reforço da vigilância epidemiológica, tratamento dos casos e medidas de prevenção.
Quais são os sinais de alerta?
A cólera pode provocar diarreia aquosa intensa e vómitos. O principal perigo é a desidratação rápida, porque o organismo perde grandes quantidades de água e sais minerais.
Sede intensa, boca seca, fraqueza, tonturas, olhos encovados e redução da quantidade de urina podem indicar desidratação. Em situações graves, podem ocorrer choque e morte.
Por isso, uma pessoa que apresente diarreia aquosa intensa, principalmente numa área afetada por um surto, deve procurar rapidamente uma unidade sanitária.
Como prevenir novas infeções depois das cheias?
A prevenção começa pela utilização de água segura. A população deve evitar beber água de rios, valas, poços ou outras fontes que possam ter sido contaminadas pelas águas das cheias, utilizando água tratada ou outra fonte considerada segura pelas autoridades de saúde.
Também é fundamental lavar as mãos com água e sabão, especialmente antes de preparar ou consumir alimentos e depois de utilizar a casa de banho. Frutas e vegetais devem ser devidamente higienizados, e os alimentos precisam de ser preparados e conservados de forma segura.
A recuperação das infraestruturas de água e saneamento é igualmente essencial. Sem sistemas seguros de abastecimento de água, eliminação de fezes e gestão de resíduos, o risco de novos focos permanece elevado.
